ATRASO: Clima prejudica produção de soja e ameaça safra de milho em Mato Grosso

Produção atrasada provoca efeito dominó e deve influenciar no preço do milho na safra de verão

Início de setembro e ainda há maquinas plantando. O cenário metrológico mato-grossense não favoreceu a safra 2017-18, na região Norte do estado, principal produtor de grãos de Mato Grosso. O impacto já é sentido e as expectativas não são das melhores, como exemplifica o produtor rural Albino Ruiz, no município de Nova Ubiratã (480 km de Cuiabá) que já se prepara para uma safra bem menor do que a 2016-2017.
“Final de Outubro e nós ainda estávamos com apenas 60% da área plantada, um atraso de 15 dias no mínimo. No mesmo período do ano passado nós já estávamos com todas as sementes na terra. Cada dia de atraso significa mais prejuízo. Estamos esperando uma safra 30% menor”, conta o produtor.
O prejuízo não fica apenas na queda de produção, a falta de frequência na chuva levou Albino a replantar 10% dos 4.300 hectares de lavoura. Na mesma região, o produtor Cassio Herrmann aposta em uma queda um pouco menor na produção, 20%. Entretanto, o custo está bem mais elevado.
“Com o replante de uma parcela da área, nós tivemos que comprar mais sementes. Esse fato, somado ao aumento no preço dos insumos, vai nos render uma safra mais cara”, pontua.
De acordo com o boletim agrometereológico desenvolvido pela Embrapa Agrossilvipastoril em Sinop, o clima da região está atípico. O pesquisador Jorge Lulu aponta que no início de outubro o volume pluvial já deveria se estabilizar. “O que deveria ter chovido no final de setembro, choveu no final de outubro. Muitos produtores estavam aguardando para poder plantar. Esse atraso vai influenciar diretamente na segunda safra, normalmente de milho ou algodão”, explica o pesquisador.
As áreas que precisaram ser replantadas, estarão prontas para colheita muito tarde. A “janela” (como é chamado o período ideal para plantar uma cultura) de milho é do início de janeiro (com cultivares que produzem mais cedo) até 25 de fevereiro. Sendo que, a partir do dia 15, as sementes de alta tecnologia não são indicadas, pois falta água e não há resposta na adubação. Isso resulta em baixa produção.
Cássio só não vai perder a janela do plantio de milho devido ao tamanho da propriedade, 82 ha, o que proporciona a colheita e plantio mais rápido. Entretanto, outros produtores não terão a mesma sorte.
“Eu consigo colher o soja da área atrasada e plantar o milho dentro do prazo. Mas em grandes propriedades é muito mais demorado. O grande problema é que antes de iniciar o plantio do soja, os produtores já adquirem os pacotes para plantar o milho de acordo com o tamanho da área. Isso a um custo médio de 50 sacos por hectare. Normalmente a safra é de 100 sacos por ha, mas com esse atraso, pode chegar a 60 ou 70. Se somar o custo com empregados, maquinário e transporte, é certeza que fechará no vermelho”, alerta.
A saída para esse problema é a substituição da safrinha de milho, por feijão ou sorgo. Isso se a empresa que fez a venda do pacote aceitar negociar com o produtor, o que é muito difícil. “Nenhuma empresa aceita de volta. O produtor tem que engolir, tem que plantar. E então vem o prejuízo”, lamenta.
Outra grande influência na queda da produção, é a baixa qualidade de parte das sementes. Os produtores apontaram falta de vigor. “As sementeiras venderam muito esse ano. E as sementes que vieram para mim, tinham taxa de germinação de 60%, sendo que o mínimo é de 85%”, apontou Cássio, o mesmo problema foi enfrentado na propriedade de Albino.
Aposta no milho
Com a estabilidade climática do final de 2016, a última safra de milho foi alta. O preço da saca chegou a R$ 13,20 em Sorriso (Capital Nacional do Agronegócio), uma queda de 63,6% na comparação anual. Entretanto, os estoques do grão estão no fim e com a diminuição de área de plantio na próxima safrinha (devido à grande taxa de replante), a aposta é que o preço tenha um aumento considerável.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma redução entre 6,1% e 10,1% na área de milho de verão (primeira safra) no país, frente à safra passada. Em volume, são de 5,82 milhões a 8,07 milhões de toneladas a menos.
Na B3 (antiga BM&F/Bovespa), os contratos futuros de milho com vencimento em novembro deste ano fecharam cotados em R$ 31,60 por saca nesta quinta-feira, dia 26. Para janeiro e março de 2018 o mercado sinaliza uma saca de R$ 32,80 e R$ 33,75, respectivamente. Ou seja, uma alta de 8,8% até o final do primeiro trimestre do próximo ano.

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