Silval confirma R$ 10 milhões em propina a Piran e nega intimidação a Nadaf

“As pessoas faziam os acordos porque queriam, porque viam nesse método uma forma de receber dinheiro devido há anos e que ainda poderia ser contestado”, disse Silval.

Foto: Circuito MT

Em depoimento à juíza Selma Arruda, no Fórum de Cuiabá, realizado na tarde desta quinta-feira (20), o ex-governador Silval Barbosa (PMDB) declarou como eram realizados os acordos de pagamento e desapropriação de um terreno de 97 hectares, no Jardim Liberdade, em Cuiabá, por meio do Governo Estadual.

Silval relata tranquilamente à juíza que os investigados eram procurados pelo então secretário da Casa Civil, Pedro Nadaf, e o ex-procurador Chico Lima, a fim de realizarem os acordos com o retorno financeiro ao chefe do executivo estadual. Mas garante que nenhum tipo de chantagem, extorsão ou coação era usado contra os empresários.

“Nadaf sabia de todas as minhas dívidas, nossa relação era de extrema confiança. Eu pedi para ele que resolvesse e dei meu aval para a transação e assim foi feito. Posteriormente, também fiquei sabendo por meio do processo que Pedro teria dito que estava sendo coagido por mim, e isso nunca aconteceu”, declarou em juízo. Nadaf declarou à juíza que se sentiu intimidado após uma conversa com Silval.

“Apenas questionei ele uma vez dentro da Casa de Custódia sobre uma possível delação e disse que, se ele fosse fazer mesmo, para que nós procurássemos um meio de fazer isso juntos. Para mim, a nossa relação continuava de confiança total”, revelou.

Metade do desvio  em propina

No total, o retorno de dinheiro à organização criminosa era de R$ 15,8 milhões, por meio de fraude em documentos para a desapropriação. Ou seja, o governo pagou metade e os outros 50% do valor do imóvel ficou para pagamento em propina ao grupo criminoso.

A área, de acordo com a Delegacia Fazendária (Defaz) e o Ministério Público Estadual (MPE), custou aos cofres públicos R$ 31,75 milhões, dos quais metade do valor foi desviado.

Ainda de acordo com Silval, a operação (desapropriação) foi realizada para saldar uma dívida da campanha de 2014 feita pelo grupo político com o empresário Valdir Piran, no valor de R$ 10 milhões.

“Eu já tinha dito para o Pedro resolver isso, quando ele veio falando sobre isso com o Chico Lima. Fui informado de que o terreno em questão já estava com decisão judicial para desapropriação e pronto para pagar, e isso foi que fizemos”, contou.

Ainda detalhando os trâmites de negociações, Silval disse que solicitou uma avaliação do terreno apresentada por R$ 31,7 milhões e negociou o valor de retorno, que inicialmente seria suficiente para cobrir a dívida com Piran.

“A partir dessa autorização, eles foram cuidar desta parte burocrática dentro do Intermat (Instituto de Terras de Mato Grosso) para falar com Afonso e trabalhar a desapropriação e depois tratar de como seria possível pagar isso aí ainda no ano de 2014. Foi se discutido isso na possibilidade de pagar em 7 parcelas, aí foi pedido e determinado fazer o orçamento e, posteriormente, a previsão dos pagamentos pela Secretaria de Fazenda”, explicou.

Empresários beneficiados 

Do montante arrecadado, Barbosa especificou que R$ 200 mil reais foram pagos ao empresário Alan Maluf e mais 200 mil destinados a Antônio Carlos Milas, empresário de mídia preso, e, por fim, os R$ 10 milhões para Piran.

Ainda sobre a divisão dos recursos, Silval disse que ficou sabendo posteriormente que foram pagos 600 mil reais a cada secretário envolvido na transação.

Sobre a participação do empresário Filinto Muller, citado no processo, Silval alegou nunca ter entendido essa inclusão. O levantamento dos dados foi elaborado inclusive a partir da colaboração premiada (delação) do empresário Filinto Muller.

Os depósitos a Piran, conforme a ação, foram realizados pela empresa de Filinto Muller, a SF Assessoria e Organização de Eventos, criada especialmente para facilitar a operacionalização do suposto esquema e colocada em nome de Sebastião Faria.

“Eu não sei quem é Filinto Muller, eu não conheço e não entendi porque Pedro Nadaf não fez essa transação diretamente. Na época eu até questionei Nadaf porque fez isso e até chateado por ter envolvido mais pessoas no processo”, lembrou.

Silval, que desde junho cumpre prisão domiciliar, presta esclarecimentos no âmbito da ação penal derivada da 4ª fase da Operação Sodoma.

Além de Silval, também são réus: os ex-secretários de Estado Pedro Nadaf, Marcel de Cursi, César Zílio e Pedro Elias; o médico e filho de Silval, Rodrigo Barbosa; e os empresários Alan Malouf e Valdir Agostinho Piran.

(Colaborou Jonas da Silva)

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA