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    Por que foges, cidadão de bem? – Diálogos da Fé – CartaCapital

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    Recentemente, na cidade de São Paulo, um jovem rico bateu com seu Porsche em um outro carro, cujo motorista era um trabalhador de aplicativo. A mãe do rapaz o retirou do local, alegando levá-lo ao hospital para ser atendido – deixando de prestar socorro à vítima, que veio a falecer. Mãe e filho, soube-se depois, não foram ao hospital, apenas fugiram do local sem prestar socorro.

    A dupla talvez contasse com a indulgência da Justiça paulista, o que de fato veio a se concretizar. O Tribunal de Justiça de São Paulo negou a prisão preventiva de Fernando Sastre de Andrade Filho, que segue em liberdade. Ter dinheiro e influência bastou para que não fosse preso em flagrante.

    Em Campo Grande, um outro motorista de Porsche atropelou um motoboy, causando também a sua morte. Da mesma forma que Fernando, o motorista de Campo Grande deixou o local e ignorou o socorro à vítima. Com dinheiro e influência, o dono da Porsche segue em liberdade.

    Ambos os casos, de homens brancos, jovens, ricos que dirigem em alta velocidade com seus carros potentes, sem pensar nas consequências de seus atos, me fizeram pensar em uma passagem do livro de Tiago, no Novo Testamento da Bíblia, da qual gosto muito. Aliás, ouso dizer que são trechos bíblicos que poderiam estar em qualquer discurso marxista.

    Em Tiago 2:6, o discípulo diz: “Mas vocês desprezam o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles que os arrastam para os tribunais? Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado?”. Um pouco antes, ainda no capítulo 2, Tiago diz que na Sinagoga tratava-se bem os ricos, e mal os pobres.

    Tiago traz o tempo todo, para reflexão, o modo como os religiosos, que dizem ser tementes a Deus, fazem acepção de pessoas. E num país cuja população de cristãos, católicos e evangélicos, beira os 85%, ou seja, é muito provável que a religião da maioria das pessoas envolvidas nesses dois casos de injusta indulgência, seja o Cristianismo.

    Fico reflexiva… Como um país com milhões de pessoas que se reivindicam cidadãos de bem, tem tanta impunidade? Ora, que falácia é essa que faz com que a justiça seja muito mais vingança contra o pobre do que responsabilização de atos indevidos.

    Como um país em que a maioria do povo é cristão, que se reivindica cidadão de bem, tem esse comportamento tão anticristão? O fato é, que o familismo que tem atingido as narrativas midiáticas a respeito de política, tem como base conteúdo religioso e moral, para ganhar legitimidade e apoio de pessoas que de fato acreditam em Deus, dizendo falsamente que defendem as famílias e a religião.

    Contudo, o que se vê, é que pessoas que se apoiam neste tipo de discurso, na verdade, usam essas narrativas de família de bem, anticorrupção, dentre outras pautas morais, para promover benefícios próprios.

    Embora os dois casos não tenham relação direta com religiosidade, não podemos desconsiderar que este segmento da sociedade, que pode ter carros que valem mais um milhão de reais, se beneficia com essa articulação entre fundamentalismo religioso e neoliberalismo. Não sejamos inocentes, é o interesse deste tipo de gente que a Bancada Evangélica tem defendido ao votar para defender, bancos, latifundiários, agro empresários, madeireiros e outros tantos ricos cujos filhos atropelam friamente a classe trabalhadora.

    Chama a minha atenção, neste caso, o fato de que Ornaldo Viana, o motorista morto, era evangélico. A ironia disso tudo, é que cotidianamente, a bancada evangélica não se alia aos evangélicos e evangélicas trabalhadoras. Não defende o pobre. Isso, porém, não nos surpreende. É assim há milênios, e a carta de Tiago é prova disso. Muitos religiosos agem contra a justiça, contra a igualdade de tratamento entre as pessoas. Em nome da manutenção dos privilégios dos opressores, oprimem cotidianamente milhões de pobres (cuja maioria, ironicamente, encontra-se dentro de igrejas).

    Até quando a base das igrejas se manterá calada diante de tanta injustiça?

    Uma país tão religioso, tão cristão, tão “cidadão de bem”, usa essa máscara para esconder o que de fato é: um país desigual, explorador da classe trabalhadora e que lucra com mortes de Ornaldos e Hudsons, que trabalham de maneira precarizada, sem direitos, deixando famílias desamparadas e sem direito à justiça por suas mortes.

    Que a carta de Tiago ecoe nos ouvidos de todos os cristãos, que essas palavras de justiça e igualdade nos incomodem até que saibamos que os ricos nos oprimem, nos arrastam para os tribunais, enquanto seus filhos fogem em suas Porsches milionárias.



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