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É só morango, amor – CartaCapital

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Uma nova febre atingiu o país. Depois do bebê reborn, temos agora o morango reborn. Tido como fruta romântica desde meados do século passado, quando convidar alguém para beber champagne com morango era o ápice da sedução, ela ressurgiu como versão do desejo gastronômico. E desbancando momentaneamente a velha e boa maçã do amor. Fenômenos como esse surgem e desaparecem em um piscar de olhos. Ou numa mordida.

Dando crédito para a original, tal como o pecado, a maçã do amor tem origem provável em Londres, por volta de 1890. Mas foram os americanos que se dispuseram a transformar a fruta em produto, segundo consta, por William W. Kolb. A partir daí a maçã ganhou o mundo.

No Brasil existem relatos vagos e não comprovados sobre o produto começar a ser comercializado em 1959, por uma família espanhola de sobrenome Farré. Mas a história é vaga e incerta. Teria surgido como um doce romântico para o Dia dos Namorados. Isso explica a transição para as festas juninas, onde as barracas de maçã do amor ganharam espaço definitivo.

O Dia dos Namorados foi criado como uma data comercial e o 12 de junho foi escolhido por ser um dia antes das comemorações do santo casamenteiro. Mas era muito melhor vender aos montes do que individualmente. Essa transição transformou a maçã do amor em doce obrigatório em todas as quermesses, até transitar por ruas dos bairros mais afastados e chegar na porta das escolas primárias.

O que explica ao movimento do morango do amor? Recentemente, uma confeiteira de Senador Amaral, cidade de Minas Gerais, Cláudia Maria Nicoleti, foi apontada como a criadora da iguaria, sendo o produto responsável por garantir um prêmio no Festival de Inverno da cidade em junho deste ano. Antes dela, porém, uma confeiteira de Santa Catarina, mais precisamente da cidade de Itajaí, teria sonhado com o doce em 2020, durante a pandemia de Covid. Ela, no entanto, nega a pretensão de ser a inventora. Afirma, sim, ser uma das pioneiras.

O ingrediente definitivo do morango do amor tem nome: redes sociais. Nada do caramelo, da casquinha crocante ou das variações já surgidas. As redes sociais demonstram mais uma vez seu poder de mover consumo, criar hábitos que se evaporam no ar em semanas ou poucos meses, especialmente os criados sem uma estrutura comercial e empresarial como sustentação. O fenômeno diz mais sobre os consumidores do que sobre o produto.

Com a evolução dos sistemas de comunicação, o tempo tornou-se protagonista no comportamento de consumo. Antigamente, as tendências levavam meses — até anos — para se consolidar. Começavam com os chamados “usuários iniciais”, passavam pelos “adotantes precoces” e só depois alcançavam o público mais amplo. Quando isso acontecia, os primeiros já tinham partido em busca da próxima novidade.

Com a internet, a curva foi reduzida. Formam-se filas para ter acesso aos lançamentos. Ter antes passou a ser um valor. O tempo é monetizado como diferencial. O novo smartphone, a chegada de uma nova edição de um livro, o modelo de tênis de uma marca conhecida. Tudo gera fila e histórias de pessoas acampando na frente de lojas. Filas geram selfies. E selfies movimentam as redes. A internet passou a promover o produto e, em conjunto, o tempo de consumo.

Esse comportamento é o sonho de movimentação de empresas. Mas, na maioria das vezes, surge como rastilho de ações espontâneas e desordenadas. Os morangos do amor são um exemplo de como o tempo molda o comportamento. Chaplin, em Tempos Modernos, foi engolido pela máquina e teve que adaptar seus gestos a uma nova velocidade de produção. As redes sociais redefinem nossa relação com o tempo, encorajando uma busca constante por algo novo – e que nos permita fazer uma selfie. E, claro, estarmos entre os primeiros, integrados a uma vanguarda que alegremente come um morango com calda.

Informações são do site Carta Capital, Clique aqui

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