Chegou o dia que muitos jornalistas sabiam que era inevitável: a balança virou e agora a principal fonte de informação das pessoas não é mais o jornal, revista ou qualquer veículo de imprensa. Mas, sim, as plataformas de redes sociais.
Televisão e sites de notícias são preferência apenas de entrevistados acima dos 45 anos. E tem algo em que a idade apresenta maior impacto: jovens não herdaram dos pais e avós o costume de ler jornal. Mais de metade dos entrevistados com 18 a 24 anos (56%) nunca mantiveram esse hábito. A rigor, é uma constatação numérica (e feita com método) de algo que a gente já sabia.
Isso quer dizer que a imprensa morreu? Não
O relatório indica uma distribuição relativamente equilibrada dos hábitos. Existe uma confusão recorrente entre parte do público de que novas mídias são algozes das antigas. Aquela história de que video killed the radio star, como diz uma música antiga.
Não é bem assim. A história mostra que as mídias hoje formam um ecossistema em que mídias tradicionais e recém-chegadas dividem a cada vez mais fragmentada (e escassa) atenção das audiências.
Agora, o relatório traz outra informação sobre a imprensa — essa, sim, bem preocupante. A confiança do público no jornalismo atingiu seu nível mais baixo desde 2015. No nível global, caiu para 37%. Aqui no Brasil, foi ainda mais acentuado: com uma queda foi de 6 pontos percentuais, chegamos a penas 36% do público, menor número em doze anos. E, detalhe triste: quase metade dos brasileiros (47%) afirma evitar as notícias de vez em quando ou frequentemente.
Cresce consumo de notícias via IA, no Brasil e no mundo
Embora originalmente os chatbots não tenham sido lançados como buscadores, essa funcionalidade tem se consolidado com força como contei num texto sobre a morte dos clicks outro dia. Isso aparece também na pesquisa, que mostra que o uso do ChatGPT, do Gemini e similares para procurar notícias tem crescido.
Mais especificamente, aumentou de 7% para 10%, globalmente. Aqui, outra vez, o crescimento foi maior: 13% dos brasileiros usam chatbots de IA semanalmente para consumir notícias. Um crescimento de 4 pontos percentuais em relação ao relatório de 2025.
Aliás, achei muito interessante um comportamento dos brasileiros descrito na pesquisa. Nossos compatriotas gostam de acessar notícias via IA devido à possibilidade de fazer perguntas de acompanhamento sobre uma reportagem. Para mim, isso sinaliza algo positivo a respeito dos nossos leitores, que é o interesse legítimo em entender melhor o que a gente tem trabalho de escrever.
Isso aparece em números, olha só: 44% dos brasileiros entrevistados que usam IA, fazem isso para perguntas ligadas a uma reportagem; 37% pedem aos modelos as últimas notícias; 34% querem encontrar ou avaliar uma fonte de notícias e 33% pedem para resumir uma notícia. Também tem uma parte do público (32%) que pede para a inteligência artificial tornar um texto mais fácil de entender.
Meu ponto de vista, aqui, é que a imprensa brasileira precisa definitivamente se entender com os modelos de inteligência artificial. Manter relevância de marca — inclusive as jornalísticas — passará, necessariamente, por citações nas respostas dos chatbots. O que, para quem vive de tráfego on-line, representa uma potencial queda brusca na audiência. Porém, parte dos entrevistados declarou que gosta de clicar nos links das IAs para saber mais ou para se certificar de que aquela reportagem não surgiu de uma alucinação.
Desde o surgimento da internet, a imprensa vive uma reinvenção compulsória após a outra. As redes sociais acabam de tomar a dianteira oficialmente, e as IAs parecem aquela onda forte que se forma no horizonte. Hora de se preparar para o impacto ou ser levada por ela, portanto.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos











