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    Como o PT reinventou o coronelismo no Nordeste

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    O coronelismo foi um sistema de dominação política, social e econômica baseado na concentração de poder local nas mãos de grandes proprietários rurais, os chamados “coronéis”. Não se tratava apenas de controle eleitoral, mas de uma engrenagem de mando que substituía direitos por favores, anulando a cidadania e criando dependência estrutural entre o poder local e a população (Leal, Coronelismo, enxada e voto).

    Suas raízes remontam ao Império, especialmente à criação da Guarda Nacional, em 1831, quando títulos militares foram concedidos às elites regionais para manter a ordem. Esse modelo se consolidou na República Velha (1889–1930), período marcado pela descentralização política, pela fragilidade do Estado nacional e pelo fortalecimento das oligarquias regionais, com especial intensidade no Nordeste (Faoro, Os donos do poder).

    Na prática, o coronelismo funcionava como um pacto informal. O governo central dependia dos coronéis para garantir votos e estabilidade política; em troca, tolerava abusos, fraudes eleitorais e a apropriação privada do poder público. A desigualdade política não era um desvio do sistema, mas o seu próprio fundamento.

    As características do coronelismo eram claras: clientelismo, voto de cabresto, fraude eleitoral, controle da polícia local e uso sistemático da violência. O voto era aberto, o eleitor vigiado e a oposição, silenciada. Não havia disputa democrática, mas coerção, sustentada pelo medo e pela dependência econômica.

    No neocoronelismo, o curral eleitoral deixa de ser a fazenda e passa a ser o município estruturalmente dependente. O favor privado é substituído por políticas públicas instrumentalizadas; o jagunço dá lugar ao cabo eleitoral; a coerção direta é trocada pela dependência econômica

    No Nordeste, esse sistema assumiu contornos ainda mais perversos. A dependência era quase absoluta. O coronel controlava o acesso à terra, ao trabalho, à moradia e até à água. Votar “errado” significava perder tudo. A cidadania cedia lugar à submissão, e o eleitor se tornava refém do mando local.

    A manutenção deliberada do atraso educacional foi um dos pilares dessa dominação. O analfabetismo e a baixa escolarização impediam autonomia crítica e garantiam a perpetuação do poder. Onde a educação não chegava, o crime violento cumpria seu papel disciplinador, por meio de jagunços e intimidação armada.

    Havia também um componente simbólico central. O coronel era construído como figura paternal e quase mítica, ao mesmo tempo protetor e temido. Essa personalização do poder dissolvia a ideia de Estado e confundia direitos com favores, criando vínculos emocionais que sustentavam a obediência política ao longo de gerações.

    A Revolução de 1930, o voto secreto e a urbanização não extinguiram o coronelismo. Ele se adaptou. Surgiu o neocoronelismo, no qual a violência explícita foi substituída pelo controle institucional, pelo uso estratégico do orçamento público, da máquina administrativa e dos meios de comunicação locais.

    No neocoronelismo, o curral eleitoral deixa de ser a fazenda e passa a ser o município estruturalmente dependente. O favor privado é substituído por políticas públicas instrumentalizadas; o jagunço dá lugar ao cabo eleitoral; a coerção direta é trocada pela dependência econômica crônica. Mudam-se as ferramentas, mas a lógica permanece.

    É nesse contexto que se insere a ascensão do PT no Nordeste a partir dos anos 2000. O discurso inicial prometia libertar o povo dos coronéis. O partido consolidou hegemonia em estados como Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão e Rio Grande do Norte, formando coalizões duradouras e dominando o mapa político regional.

    Duas décadas depois, os resultados revelam uma contradição profunda. Os estados sob domínio petista concentram, de forma recorrente, os piores indicadores educacionais e sociais do país. A ampliação dos programas de transferência de renda não promoveu emancipação estrutural. A dependência do Estado aumentou, enquanto a mobilidade social permaneceu limitada.

    Na educação básica, os dados são eloquentes. IDEBs persistentemente baixos, altos índices de analfabetismo funcional e desempenho insuficiente em matemática e língua portuguesa indicam que o ciclo histórico de atraso não foi rompido. Sem educação de qualidade, o eleitor continua vulnerável ao discurso paternalista e à política do favor.

    Paralelamente, a segurança pública no Nordeste se deteriorou de forma significativa durante o período de hegemonia petista. As taxas de homicídio cresceram, a presença de facções criminosas se expandiu e a região passou a concentrar a maior parte das organizações criminosas do país. A expansão do narcotráfico coincidiu com os anos de consolidação desse modelo político.

    As semelhanças com o coronelismo histórico são evidentes: hegemonia prolongada, personalismo político, dependência econômica, controle indireto do eleitor e o surgimento de “coronéis do PT” – lideranças regionais que concentram poder local, controlam máquinas partidárias e operam como intermediários entre Brasília e os currais municipais. Não se afirma que o crime organizado seja um braço do projeto político, mas os dados mostram que sua expansão ocorreu no mesmo período dessa dominação.

    Sustentar que o PT representa o coronelismo do século XXI no Nordeste não é retórica ideológica, mas uma tese apoiada em padrões históricos e empíricos. Mudaram os métodos, não a lógica da dominação. Romper esse ciclo exige virar a chave: liberdade econômica, educação de verdade, segurança pública eficaz e, sobretudo, uma mudança profunda de mentalidade – da dependência para a crença no indivíduo.

    Zizi Martins, vice-presidente da ANED, membro fundadora e diretora da Lexum, presidente do Instituto Solidez e membro do IBDR, é advogada, com mestrado em Direito Público e especialização em Direito Religioso, doutora em Educação e pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia.

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    Créditos Gazeta do Povo, Clique aqui

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