Na terça-feira 10, celebra-se o Dia Mundial do Palhaço. “É um sacerdócio. Você cria sua roupa, faz sua sequência, repete, pega estrada, sempre procurando a risada. É um caminho de resistência pela brincadeira”, resume Jéssica Alves, a palhaça Vírgula, que aos 16 anos se decidiu pela arte circense.
“Quem nunca colocou um nariz de palhaço?”, pergunta ela, ressaltando a importância da alegria e da brincadeira em tempos difíceis como o que vivemos. “Temos milhares de palhaças e palhaços no Brasil atuando na lona, em hospitais, em escolas, nas ruas, em festas, em espetáculos no teatro, em óperas. É uma figura muito protagonista.”
Jéssica Alves é formada pela Escola de Palhaços dos Doutores da Alegria. Tem técnica em dança e é formada em técnica circense com ênfase em acrobacias de solo e aérea. É formada também em Gestão de Políticas Públicas pela USP. A palhaçaria é a linguagem principal de sua pesquisa.
“A gente denomina ‘palhaçaria’ a arte do palhaço, incorporando o fato de que existem muitas mulheres palhaças e também a atuação de corpos dissidentes nessa arte, que pode ou não ter nariz vermelho, mas exerce a função da diversão, da animação”, explica.
Ela começou na dança e na palhaçaria ao mesmo tempo, ainda na adolescência, em São José dos Campos (SP). Embora tenha inicialmente tentado atuar no circo, enfrentou diversas dificuldades por ser mulher.
“Não se admite na lona (no circo) aprendizado de mulheres, embora a gente tenha uma figura muito emblemática no circo brasileiro, que é o palhaço Xamego”, conta ele. Xamego era interpretado por Maria Eliza Alves dos Reis (1909-2007), a primeira palhaça de picadeiro do Brasil.
“Ela precisou ser um personagem masculino para estar em cena”, enfatiza Jéssica. “Eu sou uma palhaça de escola, de uma geração que não tem mais a ver com a lona, mas que busca uma itinerância dentro de uma perspectiva autônoma que sempre coexistiu com circos no Brasil.”
Jéssica explica que a função sempre foi negada sob a perspectiva das mulheres, embora sua geração já ocupe espaço na palhaçaria. “A gente sabe que a tradição de circo da arte do palhaço vem com uma carga de desumanização das mulheres, de pessoas negras e de LGBTQIA+. Mas como exercer essa tarefa de fazer rir sendo mulher?”
A resposta está nos vários espetáculos já realizados pela própria Jéssica Alves, como a performance mascarada Paiaço-Paiaça. O maior deles, porém, é Vírgula iLtda., que traz, segundo as palavras dela, “o caldo de 14 anos de todas as disciplinas em que me envolvi”.
O espetáculo trata de um dia de trabalho da palhaça Vírgula, enfastiada com tanta papelada para carimbar. O projeto conta com trilha sonora instrumental circense de Marcelo Bueno, que explora a sonoridade flamenga e latina — com participação em uma música, das oito que compõem o trabalho, do guitarrista flamenco Fernando de Marília.
“O espetáculo trabalha muitas emoções, a risada, mas a angústia e também uma visão poética sobre nossa condição de seres explorados”, expõe Jéssica Alves. “A gente vai superando as barreiras para conseguir de fato ter a cumplicidade da plateia. As pessoas criticam quando a obra artística vem com ativismo, com mensagem com esse teor crítico. Mas o ato de rir é político, coletivo.”
Assista à entrevista de Jéssica Alves, a palhaça Vírgula, a CartaCapital:












