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por Juliana, por todas nós – CartaCapital

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Juliana Marins, uma mulher negra brasileira, foi encontrada morta na Indonésia. O laudo fala de trauma contundente, hemorragias internas. Fala de quatro dias de dor até morrer. Fala de incertezas, de perícias malfeitas, de uma família sem respostas. Fala do horror.

Mas hoje eu quero falar sobre algo que tem se destacado, mesmo em meio à escuridão: o amor de irmã. A coragem quase sobrenatural de Mariana Marins, que não aceitou calada o laudo inicial, que se expôs à imprensa, que exigiu uma nova perícia, que acolheu o corpo da irmã sem hesitar em dizer “é um absurdo” — não em tom histérico, mas com a serenidade firme de quem sabe o que vale a honra de quem partiu.

O amor entre mulheres negras é radical porque ele insiste em nos manter vivas.Vejo na dor de Mariana Marins o reflexo das dores que nos atravessam historicamente — as violências coloniais, patriarcais, racistas, machistas —, mas vejo também a força específica, monumental, do amor entre mulheres negras. Um amor que não é “sentimental” no sentido vulgar: é político. É o que nos faz existir, mesmo quando querem nos apagar.

Em toda a cobertura sobre a morte de Juliana Marins, muito se fala de “mistério”, de “tragédia”, de “turismo”. Mas o que mais me inquieta é o quanto se fala pouco de Juliana como uma pessoa que tinha o direito de ser livre.

Livre para viajar. Livre para caminhar em um vulcão. Livre para ser jovem e sonhar. Livre para não ser morta.

E mais: livre para ter o próprio corpo tratado com dignidade, mesmo depois de morta. Não é detalhe: a primeira perícia, contestada pela família, é símbolo de desrespeito. Quando a irmã exige respostas está dizendo: minha irmã tem valor, a morte dela tem de ser levada a sério.

Mulheres negras conhecem o preço de não terem sua liberdade reconhecida. Desde o tráfico transatlântico, nossos corpos foram mercadorias, terrenos de exploração.

Por isso, a exigência de Mariana Marins ecoa tanto. É um brado: minha irmã não será esquecida.

A socióloga e teórica negra estadunidense Patricia Hill Collins nos ensinou que as mulheres negras constroem saberes próprios sobre o mundo, moldados por nossas experiências de opressão e também de solidariedade. Ela fala do feminismo negro que surge da nossa recusa a aceitar a inferioridade imposta.

Em muitas culturas africanas e afro-diaspóricas, honrar os mortos é obrigação ética. Porque quem morre não desaparece: torna-se ancestral. Mariana, ao buscar a verdade, está garantindo que Juliana não seja esquecida ou desrespeitada.

Este não é apenas um artigo de denúncia. É também um canto de amor. Quero falar, com todas as letras, sobre como as mulheres negras se amam.

Amamos com profundidade. Porque aprendemos que o mundo não nos ama.
Amamos com atenção. Porque sabemos que ninguém mais vai cuidar.
Amamos com raiva. Porque a raiva também nos salva.
Amamos com paciência. Porque a luta é longa.
Amamos com criatividade. Porque transformamos o sofrimento em arte, cultura, resistência.

O amor de irmãs negras é particular. Não é “concorrência”, como tentam nos ensinar. É cumplicidade. É ombro. É mão que puxa de volta do abismo. É quem diz: levanta.

A morte de Juliana Marins não é apenas um caso policial. É um trauma social. É mais uma página cruel no livro das mortes de mulheres negras, tantas vezes violentas, tantas vezes tratadas como banais.

Mas ela não está sendo esquecida. Porque Mariana não deixa.

Quem fica, fica com a dor. Mas também com a tarefa. A tarefa de manter viva a memória, de pedir justiça, de expor o racismo. De dizer: Juliana não será apagada.

Nós, mulheres negras, queremos poder viver. Queremos poder viajar. Queremos poder amar. Queremos poder voltar para casa. Queremos poder morrer de velhas, não assassinadas. Queremos poder ser choradas com dignidade.

A morte de Juliana Marins é um crime contra isso tudo. E a luta de Mariana é a prova de que o amor de mulheres negras não se curva.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Informações são do site Carta Capital, Clique aqui

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