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    PF apura se Master tentou usar TCU para travar decisões do BC

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    Um documento encontrado em um dos celulares apreendidos pela Polícia Federal com o empresário Daniel Vorcaro levantou suspeitas de uma possível tentativa de interferência em decisões oficiais e está agora no foco das investigações em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça.

    O arquivo, sem assinatura e sem autor identificado, era uma espécie de rascunho do que supostamente poderia ser uma decisão do Tribunal de Contas da União que sugeria ao Banco Central interromper qualquer medida relacionada ao Banco Master, instituição comandada pelo próprio Vorcaro.

    Segundo fontes a par das investigações, embora ainda não haja confirmação sobre a origem do documento, a principal suspeita é de que ele possa ter sido parte de uma rede para construir um caminho dentro do TCU na tentativa de suspender decisões do Banco Central.

    “Na prática, isso pode indicar a tentativa de usar o tribunal como uma espécie de instância de revisão de decisões técnicas, algo inadequado e sem precedentes”, alerta a economista Regina Martins.

    Vale destacar que o TCU é o órgão de controle externo do governo federal responsável por fiscalizar a aplicação de recursos públicos, auditar contas da União, avaliar a gestão de políticas públicas e emitir pareceres sobre despesas e contratos administrativos.

    Apesar de atuar de forma independente, ele está vinculado ao Congresso Nacional, ao qual presta contas, e suas decisões têm caráter consultivo ou fiscalizatório, podendo orientar, suspender ou recomendar ações de órgãos executivos, mas sem substituir a atuação do Executivo nem com poder de interferir em decisões de órgãos independentes, como o Banco Central.

    A defesa de Vorcaro afirma que não comenta documentos obtidos por meio de vazamentos e diz que o assunto já está sob análise judicial. A Gazeta do Povo procurou o TCU e o ministro relator do caso na Corte de Contas, Jhonathan de Jesus, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto às manifestações.

    Minuta estava em meio a 12 mil arquivos de Vorcaro

    A minuta identificada pelos investigadores era um documento entre cerca de 12 mil arquivos extraídos de um celular do empresário. Esse foi o único aparelho periciado até o momento. A Gazeta do Povo confirmou a existência do documento. Foram encontradas duas versõe mesmo texto, criadas no mesmo dia, em agosto de 2025.

    Outros oito celulares, também de Vorcaro, começaram a ser analisados nas últimas semanas. O conteúdo foi enviado à CPMI do INSS, no Congresso, mas a comissão encerra os trabalhos neste sábado (28), já que a prorrogação não foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Vorcaro é um dos citados no relatório final da CPMI.

    Quanto ao conteúdo da minuta, ele previa não só a suspensão das decisões do Banco Central contra o Master, mas também a convocação de técnicos do próprio BC para que prestassem esclarecimentos sobre tais decisões em até dez dias.

    Para especialistas, a existência dessa minuta, a semelhança com ações oficiais posteriores de decisão do BC para barrar negociações entre o Master e o BRB e o contexto de decisões críticas envolvendo o banco acendem um novo alerta.

    “O ponto central agora é entender se houve, de fato, uma tentativa coordenada de influenciar decisões públicas e quais responsabilidades podem surgir a partir disso”, explica o constitucionalista André Marsiglia.

    Quem escreveu, enviou ou recebeu a minuta

    Os investigadores tentam descobrir autoria, origem e possíveis destinatários do documento. Apesar de detalhado, o documento não é oficial: não tem assinatura nem identificação de quem escreveu. Também não se sabe se Vorcaro recebeu esse arquivo de alguém ou se ele próprio o encaminhou.

    Ainda assim, o conteúdo chamou atenção porque se parece com pedidos que foram feitos ao TCU pelo governo do Distrito Federal, comandado por Ibaneis Rocha (MDB). Àquela altura, o Master tratava da venda de títulos bilionários e negociava a venda ao Banco Regional de Brasília (BRB), comandado pelo governo do DF.

    Em paralelo, o Banco Central analisava a situação do Master e atuava para barrar a negociação com o BRB. Havia preocupações com a saúde financeira da instituição de Vorcaro e suspeitas sobre a qualidade de ativos negociados. Mesmo com esses alertas, houve movimentações para tentar reverter ou suspender a decisão do órgão regulador, que barrou a transação comercial entre Master e BRB.

    O governo de Ibaneis Rocha chegou a pedir ao TCU que acompanhasse o caso e, em seguida, solicitou a suspensão das decisões do Banco Central, com uma redação parecida com a que aparece na minuta encontrada no celular de Vorcaro.

    E esse foi um dos pontos que mais chamaram a atenção dos investigadores e de membros da CPMI do INSS que tiveram acesso ao documento. A reportagem indagou o governador do DF sobre as similaridades, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

    Técnicos do Ministério Público de Contas do TCU criticaram a tentativa. Para eles, usar o tribunal como forma de pressionar o Banco Central poderia ser uma maneira inadequada de tentar reverter uma decisão técnica, especialmente quando já existiam indícios de problemas graves na operação, como possíveis fraudes e falta de comprovação de valores. Em novembro do ano passado, o BC determinou a liquidação do Master.

    Documento foi modificado duas vezes em poucas horas

    O arquivo encontrado no celular de Vorcaro estava em formato Word e tinha o título “TCU_mora_excessiva” e seu conteúdo é direto: o texto propõe que o Banco Central interrompa todas as decisões sobre o Banco Master e ainda estabelece prazo para ouvir técnicos da própria autoridade monetária.

    “Esse tipo de documento, se articulado fora dos canais oficiais, pode indicar uma tentativa indevida de influenciar órgãos públicos”, alerta Marsiglia.

    Os dados do arquivo mostram que ele foi criado em 29 de agosto de 2025, em duas versões, no intervalo de poucas horas. Para peritos, esse detalhe é considerado relevante porque, naquele momento, o Banco Central estava próximo de tomar uma decisão sobre a operação bilionária envolvendo o Master e o BRB.

    Esse paralelo levanta, entre investigadores, a hipótese de que não se tratava de um movimento isolado, mas de uma possível e ampla estratégia para tentar reverter a decisão do regulador. Ibaneis e o governo do DF não são investigados no caso. Assim que a venda do Master ao BRB passou a ser destaque na investigação, Ibaneis Rocha chegou a dizer que não participou diretamente das negociações técnicas e que teve poucos encontros com Vorcaro, atribuindo a condução do processo à gestão do banco.

    Ao mesmo tempo, defendeu a atuação institucional do BRB e sua importância para a economia local, apesar de reconhecer falhas na relação com o Master. Disse encarar com naturalidade as investigações abertas sobre o caso e afirmou não temer uma eventual delação de Vorcaro, reforçando que sua atuação foi de caráter político e institucional, e não operacional.

    “Já se sabia que a tendência seria a de vetar o negócio, diante das preocupações com a situação financeira do Master e possíveis irregularidades”, destaca Martins.

    Alertas ignorados e sinais de articulações paralelas

    Naquele momento, o Ministério Público Federal havia alertado autoridades sobre riscos envolvendo a compra de ativos do Master, incluindo suspeitas sobre a qualidade dessas operações. A recomendação era clara: evitar qualquer aprovação até que fosse comprovada a segurança dos ativos e a lisura da transação, especialmente por envolver recursos públicos.

    Auditores do próprio Tribunal de Contas da União fizeram críticas à tentativa de acionar a Corte de Contas contra o Banco Central. Em parecer técnico de janeiro deste ano, os especialistas apontaram que a possibilidade de uso do TCU poderia representar uma tentativa inadequada de reverter uma decisão técnica, o que foge à função do tribunal.

    Também foram citados riscos elevados na operação, incluindo indícios de irregularidades, ativos de difícil comprovação e ausência de análises mais rigorosas.

    O caso no TCU está sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus. Após a liquidação do Banco Master, o ministro chegou a tomar medidas como solicitar explicações ao Banco Central e determinar inspeções. Nos bastidores, também houve discussão sobre a possibilidade de reverter a liquidação da instituição.

    Essa possibilidade, no entanto, não avançou diante de resistências internas e externas ao tribunal, além de pressões vindas de outros setores, incluindo o mercado financeiro e integrantes do Judiciário. Posteriormente, o ministro decidiu suspender a análise do caso até o avanço de outras

    Créditos Gazeta do Povo, Clique aqui

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