Caçadores retornaram de uma longa jornada pela floresta e foram recebidos pelas mulheres, que haviam preparado as bebidas tradicionais. No centro da aldeia, estava enterrado o tronco serrado da árvore sagrada, descascado, pintado e decorado com grafismos próprios. Ao redor dele, os Arara dançaram, rezaram, fizeram pedidos e agradecimentos. Cantaram. Abraçaram o tronco. Ieipari — como chamam o espírito da árvore — estava feliz. O povo Arara, novamente unido, se fortalecia para enfrentar um dos períodos mais difíceis de sua história.
No fim de março, pela primeira vez em décadas, o ritual mais importante desse povo voltou a ser realizado. Pouco antes da mobilização indígena no 21º Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília entre 6 e 11 de abril, os Arara se fortaleceram para enviar uma comitiva de jovens lideranças à capital federal.
A comunidade vive na Terra Indígena Cachoeira Seca, às margens do rio Iriri, no oeste do Pará. São cerca de 150 pessoas que falam uma língua da família Karib. Em 1987, eram apenas 31 quando fizeram o primeiro contato com a Funai. Nas décadas seguintes, viveram de forma relativamente autônoma. Mas, com a demora na demarcação, sua terra foi invadida por madeireiros da empresa Bannach, grileiros da Transamazônica e pescadores ilegais. A desintrusão do território segue sendo a principal demanda dos Arara.
Nos últimos dez anos, uma tempestade de violências atingiu o povo. A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte — sustentada por arranjos institucionais de um Estado colonial — teve efeito devastador. A Funai em Altamira foi sucateada. O impacto cultural foi comparado a uma bomba atômica.
A desintrusão do território segue sendo a principal demanda dos Arara
O contato com os Arara foi feito em 1987 por Afonso Alves da Cruz, o Afonsinho, sob coordenação de Sydney Possuelo e Wellinton Figueiredo. Considerado um caso de sucesso, o processo foi cauteloso: a primeira gripe só chegou mais de três anos depois, quando a comunidade já estava fortalecida e produzia alimento nas roças. Até 2010, uma equipe pequena liderada por Afonsinho impediu a entrada de missionários, cachaça, pescadores e madeireiros. Com a reforma administrativa da Funai e a demissão dos servidores conhecidos pelos Arara, a estrutura ruiu. Nesse vácuo, a Norte Energia passou a comandar as relações socioeconômicas na região. O resultado foi um massacre cultural. A terra dos Arara tornou-se uma das mais desmatadas do Brasil.
Em apenas uma geração, a língua deixou de ser falada por todos e passou a estar ameaçada. As roças desapareceram. O povo perdeu a soberania alimentar e tornou-se dependente. Adoeceu, enfraqueceu. Tornou-se ainda mais vulnerável diante da política anti-indígena do governo Bolsonaro, marcada por ações de extermínio. A curva descendente colocava em risco sua própria existência.
Em 2023, uma das principais lideranças, Tymbektodem Arara, foi encontrado morto no rio Iriri. A polícia não apontou causa. Ele havia falado na ONU sobre a situação do seu povo e recebido ameaças.
Apesar das perdas, os Arara conseguiram se reorganizar. Estabeleceram parcerias com o Instituto Maíra, o Cimi e o Instituto Socioambiental. Receberam atenção diferenciada da nova equipe da Funai, do Ministério Público Federal e do Ministério dos Povos Indígenas. Conquistaram o apoio da Sesai, com profissionais dedicados à saúde do povo. Criaram sua própria associação, a Kowit. Redigiram um protocolo de consulta, lançaram a campanha Guardiões do Iriri durante a pandemia e tornaram-se protagonistas de sua luta por autonomia.
A retomada do ritual de Ieipari marca uma virada. O cacique Mobu Odó Arara, o vice-cacique e intelectual Iaut Arara, o guerreiro Arapuka e lideranças do recém-criado Departamento de Mulheres do Povo Arara — como Wiwik, Tyapompó e Adaun — conduziram a celebração. Receberam apoio da Funai (com combustível) e do Instituto Maíra (com insumos). Para o próximo ritual, esperam já ter novas roças produzindo alimento.
Os jovens nunca haviam testemunhado esse rito sagrado. Muitos adultos haviam esquecido partes essenciais. Mas contaram com mestres como o pajé Munkode Arara, do grupo que fez o primeiro contato em 1981, e que nunca deixou de praticar o Ieipari.
Iaut, caçador, cantor e conhecedor dos saberes tradicionais, permaneceu na aldeia durante a caçada para ajudar nos preparativos. Preocupava-se com os jovens, que, segundo ele, “não querem levantar cedo, não respeitam os rituais, e de repente o branco chega e mata”. Ele acrescenta: “Temos que ficar espertos para preservar nosso povo vivo”. E insiste: “Não sei escrever, mas sei falar bem minha língua. Não tenho vergonha. Quem aprender a língua vai conhecer os remédios, as plantas, os cipós, fazer arco e flecha…”
Coube a Iaut escolher na floresta a árvore a ser sacrificada. Um momento ritualístico de diálogo cosmológico entre o xamã e o espírito da árvore. “Na floresta tem vida”, me disse.
Kaskora, liderança feminina, comentou: “O ritual foi ótimo. Eu não tinha conhecimento. Agora que estou conhecendo o Ieipari. Foi bom para mim e para os mais jovens. Obrigada por nos ajudar a resgatar a nossa cultura.”
Conheci Afonsinho em 2006 e, até sua morte, realizei diversas entrevistas com ele. Algumas foram reunidas no livro Memórias Sertanistas (Sesc, 2015). Participar do Ieipari foi uma oportunidade de ler aos Arara as memórias desse sertanista, que consideram herói. Quem sabe, também, contribuir para que possam reimaginar um futuro — um futuro ancestral.











